Dificuldades das adaptações

Já faz algum tempo que vemos adaptações de quadrinhos – principalmente – chegando ao cinema e televisão. Este ano e os próximos serão invadidos por um sem número de filmes e seriados baseados em personagens de quadrinhos de várias editoras. Com a proximidade do lançamento de “Thor”, nos próximos dias, e com os comentários que li e ouvi após a seção fechada que a Paramound realizou para espectadores selecionados, resolvi ponderar alguns pontos sobre esta complicada tarefa de ‘adaptar’.

Uma adaptação, nos termos que temos tido contato com televisão e cinema, nada mais é do que transpor um personagem central e todo o seu cenário para uma outra mídia – no caso do quadrinho para as telas. Isso pode parecer simples, mas não é.
Existem duas dificuldades básicas, ao meu ver pelo menos. A primeira delas é bem básica e fácil de ser percebida. Nos quadrinhos nós temos um tempo próprio. Que desejo dizer com isso? A própria característica deste tipo de mídia é não termos pressa em apresentarmos nada. Os enredos são elaborados em longos períodos, muitas sub-sagas se encadeiam e ocorrem em meio à sagas e enredos maiores. Muitas vezes esses enredos podem ser preparados por anos, algumas vezes por mais de uma década. No cinema, mais ainda do que nos seriados, esse período tem de ser muito mais breve. Claro que sempre há o recurso de se fazer passar em alguns segundos vários anos, mas para a percepção dos espectadores não é a mesma coisa nem tem o mesmo efeito.
Um caso clássico deste tipo de problema pode ser percebido na adaptação de “O Senhor dos Anéis”. No primeiro filme da trilogia, ainda no início, quando Gandalf deixa o Um Anel com Frodo e diz à ele que irá viajar para pesquisar o tempo passa como se fossem alguns dias, semanas no máximo, mas no livro se passam cerca de trinta anos. No filme isto nem é mencionado e mesmo que fosse não teria efeito algum. Em quadrinhos adaptados para o cinema temos o exemplo do filme do Demolidor que tem uma longa história de disputa com o Rei, por anos, sem nunca terem realmente se encontrado ou mesmo sem Murdock saber que era seu real inimigo. Ou mesmo na nova versão de Batman que entre seu treinamento e a entrada em ação de Bruce Wayne parecem que se passa um curtíssimo período.
Este tipo de dificuldade é impossível de ser sanada quando as adaptações são para o cinema principalmente. Caso tentassem resolver isso começaríamos a ter filmes de doze ou quinze horas de duração. Aqui temos a primeira briga de muitos fãs. Tudo parece corrido demais aos seus olhos, descontinuado ou até mesmo sem fundamentação.
O segundo problema quando é produzida uma adaptação é a pergunta fatal “a quem queremos agradar/direcionar o filme?” Não podemos nos enganar que com a enormidade de recursos direcionados para as produções cinematográficas que esta pergunta não seria o tema central de qualquer pré-produção ao cinema. Pensando em quadrinhos, sabemos que o segmento possui seu público fiel. Mas uma produção cinematográfica pensa em abocanhar uma fatia mundial muito maior que este público leitor. A produção terá de agradar pessoas de culturas diferentes, de idades diversas, de níveis culturais diversos e até mesmo pessoas que nunca haviam ouvido falar naqueles personagens. Isto requer que o verbo ‘adaptar’ seja utilizado em toda a sua profundidade. A produção terá de se transformar em um coringa que tente agradar à gregos e à troianos. Mesmo se estivéssemos falando apenas de fãs leitores, as inúmeras fases de cada personagem já seria o suficiente para criarmos um enorme debate.
Em muitos casos, como que parece ser o caso da produção de “Thor”, a escolha foi criarem como que uma nova linha para o personagem, às vezes misturando elementos de fases distintas, ás vezes inserindo pequenos pontos que antes não existiam. Em “X-Men Origens: Wolverine” isso foi bem claro, misturando elementos de Logan de várias de suas fases já mostradas nos quadrinhos com alguns elementos que nunca haviam sido sequer cogitados.
A equação da criação de adaptações é muito mais complicada do que percebemos de início. Várias vezes saímos indignados das salas de cinema quando temos nossas expectativas frustradas. Mas se tivermos esses pontos um pouco mais claros teremos uma nova visão frente às produções e, quem sabe, uma condição maior de nos divertirmos muito mais assistindo aos filmes.
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3 respostas para Dificuldades das adaptações

  1. O meio problema é quando ao invés de adaptar, os diretores mudam praticamente tudo, ou viajam na maionese afu, como aconteceu no filme do Van Helsing. Hoje estou indo ver o Thor com muita ansiedade, e um certo pé atrás….

  2. João Brasil disse:

    É verdade que algumas vezes os diretores e roteiristas deixam se velar pela criatividade e abusam da paciência dos fãs. Isso aconteceu também com Elektra.

  3. Benaduce disse:

    Creio que o pior caso foi Watchmen que,SPOILER AGORA, substituiram o falso alienígena por uma bomba de energia. Não alteraria nada na história e seria muito mais divertido (e fiel ao original).

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